Dama de copas
O forro deixado à mostra enobrece em algum momento insuspeitado o bordado de fora. A seda lisa e rosada cai leve sobre a confusão de tecidos na cama. Entre os travesseiros, jaz a saia vermelha, que se imagina justa, elegante, mesmo um pouco séria. Um vinco imperceptível marca um dos lados da colcha e parece apontar o bordado enorme. Sobre o fundo branco, a linha negra descreve na ponta duas letras enlaçadas, A e L, cujos detalhes da caligrafia se prolongam num desenho de arabesco.
Escrito por egodescriptor às 12h07
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Água-marinha
A linha d’água divide irregularmente a areia em dois tons. Do lado do mar, a praia mais escura circundada por espumas que vão se desmanchando em barulhos gasosos. Depois que a borda branca desaparece, apenas uma sombra, uma marca leve recorta a areia. Do lado de cá, a cor mais clara vazada de manchas que custam a serem adivinhadas ou sequer divisadas e surpreendidas. Só suspeitas de passagens, usos, hábitos. Algumas conchas cravejam o chão. Mais além, um barco virado, madeira podre, tinta gasta de um azul sem nome.
Escrito por egodescriptor às 12h06
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Abdução
Cansaço no solo batido, mas nem a menor perturbação. Alguns montes de terra acumulados marcam pontos no diagrama imenso. Cruzes de madeira ou ferro, tortas, malfeitas. Difícil distinção das marcas, pois o mormaço preenche de ondulações a paisagem. Visível é apenas o buraco aberto cujo fundo vai escurecendo em camadas. Ao lado, uma pá emborcada deita na areia revolta. Cravada nesta, o crânio antigo morde fortemente a terra.
Escrito por egodescriptor às 01h49
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A arte do teatro
“Palco vazio, cortina fechada, cenário sem brilho”. Fileiras de assentos sumindo no escuro. Acima de todos, o balcão abaulado. Detalhes de madeira mal vistos pela sombra. No solo do palco, cintila, no canto, a poeira fina. Vista de mais longe, o brilho mais intenso. A fita azul jogada no chão se estende até o breu da coxia. No alto, refletores apagados como olhos cegos. Somente ao fim das cadeiras a porta se abre deixando entrar a luz amarela da saída.
Escrito por egodescriptor às 11h16
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São José
Em princípio, a pia de pedra lavada, rosa. Dentro, a poça de água santa. Paredes brancas. O dourado das linhas, os relevos rococó. Os bancos de madeira escura ao longo da igreja. No altar, a imagem de São José gigante com seu filho no ombro. O tapete vermelho do chão leva ao extremo do altar. Os lados vazados guardam o estreito corredor secreto. No centro, atrás do vidro, as estátuas de Cristo ressuscitado e de Maria, feita rainha dos céus, velam um São José velho e agônico. Todos como coisa viva. Os olhos do pai do Deus vidrados diante do invisível.
Escrito por egodescriptor às 00h34
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Sedução & vertigem
"Na extensão da margem, as folhas se amontoavam como um rebanho de carneiros verdes. Folhas largas e duras, ressaltando o amarelo-ouro das flores grosseiras da abóbora, estranguladas pela folhagem áspera que se arredondava, guardando a umidade fecunda do orvalho. Os frutos, semi-enterrados na areia, surgiam aqui e ali, no meio do verde móvel e rumoroso."
Lúcio Cardoso
Escrito por egodescriptor às 02h14
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Nome escrito
"Embaixo, a terra, em cima, o macho céu". O fundo cinza escuro, mais denso. Do lado direito, a massa azul, com alguns pontos de amarelo ameno, desafia e destaca o fundo. Mais abaixo, outros pontos esparsos de branco enrugam a tintura branda. Somente do outro lado o azul vem mais definido no isolamento de tom. Mais puro. Aos poucos o fundo cinza vai se avermelhando, ilusões de roxo e violeta. O silvo rasga o som, a flecha risca o céu, arrastando com ela uma cauda de nuvens esparsas. Que ficam no desaparecendo suspenso.
Escrito por egodescriptor às 02h10
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Meu retrato
No alto, só há luz e calor. Os dois cortam pela metade o campo de visão. Embaixo, a terra vazia. Partida em pedaços que lembram octógonos riscados a giz. Cada pedaço parece ter estufado mais que a forma. Entre eles, os veios secos e profundos. Ao longe, uma cratera maior com o lago minúsculo de água fumegante. Em breve será o gás. Ali a boca da terra solta o seu bafo quente. A noite, é impensável que exista. Do chão, apenas o que é morto brota.
Escrito por egodescriptor às 02h10
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Poética
"Eis o ponto de partida de nossas reflexões: todo canto de uma casa, todo ângulo de um quarto, todo espaço reduzido onde gostamos de encolher-nos, de recolher-nos em nós mesmos, é, para a imaginação, uma solidão, ou seja, o germe de um quarto, o germe de uma casa."
Gaston Bachelard
Escrito por egodescriptor às 02h09
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My funny Valentine
O sol fraco dividiu a sala em dois espaços, um deixado à escuridão, outro melhor visto, com cores pálidas. A parede esquerda ganhou a cortina amarelada que oculta a outra janela. A parede seguinte fica atrás do sofá verde-claro. O tecido macio escorre do sofá até o chão. A ponta toca na taça derrubada sem líquido. Aos poucos, o sol incipiente desaparece, e a escuridão avança. A falta de luz indefine a cor do sofá ainda mais. Nele, a almofada amassada estufa demoradamente.
Escrito por egodescriptor às 02h09
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Fim de partida
Do asfalto ainda sobem pequenas espirais de fumaça. Estilhaços, salpicados de um vermelho forte, riscam no chão uma figura grande e incompreensível. A trilha que mancha o caminho do asfalto até o carro cinza é, em momentos, pontuada por objetos numa ordem desconhecida: brinquedo, maço de cigarros, lenço, espelho, chaves. Ao fundo, o carro. A traseira amassada, de um lado mais que o outro, ali onde as ferragens tocam no chão. A frente dividida em duas por uma abertura que segue rasgando até o painel. O vidro da frente enlameado, mistura de uma lama preta com tons, às vezes, avermelhados. As portas abertas, abandonadas. Num dos bancos, o cinto balança como um pêndulo ao passar do vento.
Escrito por egodescriptor às 02h09
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Drama
"A realidade é tão terrível
que não se pode descrevê-la
nenhum escritor jamais descreveu
a realidade como ela é de fato
e é isso que é assustador"
Thomas Bernhard
Escrito por egodescriptor às 02h06
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Soneto
Ses purs ongles très haut dédiant leur onyx,
L'Angoisse, ce minuit, soutient, lampadophore,
Maint rêve vespéral brûlé par le Phénix
Que ne recuille pas de cinéraire amphore
Sur les crédences, au salon vide: nul ptyx,
Aboli bibelot d'inanité sonore,
(Car le Maître est allé puiser des pleurs au Styx
Avec ce seul objet dont le Néant s'honore).
Mais proche la croisée au nord vacante, un or
Agonise selon peut-être le décor
Des licornes ruant du feu contre un nixe.
Elle, défunte nue en le miroir, encor
Que, dan l'oubli fermé par le cadre, se fixe
De scintillations sitôt le septuor.
Stéphane Mallarmé
Escrito por egodescriptor às 02h05
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Chão de estrelas
Duas paredes já caíram. Em frente, aquela de pé, com três rachaduras, uma delas tão imensa que corta verticalmente até o centro e depois segue uma curva até o alto. Dos lados, carcomida. No chão os blocos partidos, grandes. Também vidros quebrados. A poeira tinge as partes maiores dos vidros de uma cor pálida. O vaso de planta caído, quebrado ao meio, a terra espalhada. A camiseta amarelada, amarrotada e suja. Ao lado, o par de sapatos minúsculos, imundos, com manchas vermelhas de coágulos.
Escrito por egodescriptor às 02h05
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Conceito
"Os afectos são precisamente estes devires não humanos do homem, como os perceptos (entre eles a cidade) são as paisagens não humanas da natureza."
Gilles Deleuze/Félix Guattari
Escrito por egodescriptor às 02h04
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